Quando, em abril passado, a 214.ª Assembleia Plenária escolheu o tema das Jornadas Pastorais do Episcopado, ninguém podia ainda imaginar o conteúdo da Magnifica Humanitas: a encíclica de Leão XIV sobre a inteligência artificial e a dignidade da pessoa só chegaria no final de maio. Silere non possum, porém, tinha antecipado o título e o tema já em outubro. Os bispos portugueses tinham, assim, decidido refletir sobre o «anúncio da fé na nova revolução tecnológica e na nova cultura».
Ao abrir os trabalhos no Centro Pastoral Paulo VI, D. Virgílio Antunes colocou no centro uma tese que serve de chave de leitura para os dois dias de reflexão: o diagnóstico técnico e sociológico do fenómeno digital não é o fim, mas o ponto de partida. No meio das análises sobre a revolução tecnológica e sobre a cultura contemporânea, advertiu o bispo de Coimbra, aquilo que não se pode perder é o anúncio da fé. Tudo o resto - o algoritmo, a plataforma, a métrica - permanece subordinado ao único objetivo que justifica a presença da Igreja no ambiente digital: o encontro com Deus. Antunes sublinhou que a iniciativa de Prevost se inscreve numa longa tradição magisterial. Tal como Leão XIII interveio com a Rerum Novarum no coração da revolução industrial, também Leão XIV teve a audácia de se pronunciar quando a transformação ainda está em curso, sem resultados consolidados. Há, contudo, uma diferença que o presidente da CEP não deixou passar em branco: em 1891, aquilo que estava em causa era talvez mais claro do que hoje, perante uma aceleração que se transforma de mês para mês. Daí o valor de um ato magisterial que ousa falar «no turbilhão», antes de o fenómeno se ter estabilizado.
A dar consistência a esse diagnóstico esteve o primeiro conferencista, monsenhor Renzo Pegoraro, presidente da Pontifícia Academia para a Vida, que deu à sua intervenção a forma de uma pergunta: a inteligência artificial como «nova caixa de Pandora». A resposta do colaborador do Papa não foi, porém, a do pessimismo resignado. Pegoraro recusou tanto o alarmismo paralisante como o entusiasmo acrítico, pedindo antes criatividade perante o desafio. O modelo que propôs foi o, surpreendentemente concreto, do VAR no futebol: primeiro o ser humano, depois a máquina e, por fim, novamente o ser humano - para garantir que a decisão última continue a ser humana. O risco a evitar, explicou, é o «reducionismo digital» induzido pela rapidez da digitalização; a missão da Igreja é fazer valer a sua palavra sobre a dignidade da pessoa e do trabalho, orientando a tecnologia para o bem comum.
O programa traduz esta abordagem no plano operativo, sinal de que a reflexão portuguesa não quer ficar apenas pela formulação de princípios. O segundo dia é dedicado à comunicação da fé no ecossistema digital: Juan Narbona, da Pontifícia Universidade da Santa Cruz, aborda as estratégias digitais para as instituições eclesiais, enquanto uma sessão específica é reservada à presença dos sacerdotes nas redes sociais, com indicações práticas para um uso responsável. Há também uma dimensão prática - a sessão «Treinar com a IA», confiada a Octávio Carmo - antes de as conclusões regressarem ao seu fundamento: a comunicação final de João Manuel Duque, da Universidade Católica Portuguesa, sobre os pressupostos antropológicos e os desafios teológicos da inteligência artificial à luz da Magnifica Humanitas.
A escolha de Fátima não é marginal. O laboratório português insere-se num movimento mais amplo da Igreja universal, desde as tomadas de posição da Pontifícia Academia para a Vida até ao documento pastoral do CELAM sobre a inteligência artificial na América Latina. Neste contexto, o episcopado lusitano reivindica um pleno alinhamento com o dinamismo sinodal iniciado por Francisco e prosseguido por Leão XIV: não uma adaptação tardia às tecnologias, mas a tentativa de aprender «novas linguagens» sem trair a missão evangelizadora.
Permanece o desejo com que Antunes abriu os trabalhos: que, no final, os participantes disponham de um conhecimento mais fundamentado do fenómeno e, sobretudo, de indicações concretas para traduzir o anúncio da fé na cultura real em que a Igreja está imersa. É a aposta de quem não quer limitar-se a temer a caixa de Pandora, nem a abri-la com ligeireza, mas discernir - com critério humano - aquilo que nela se esconde.
V.G.
Silere non possum